Sem açúcar, com afeto
Meu pai diz que deseja que a filha leve uma vida certinha. Indago: “Você quer uma filha feliz ou certinha e deprimida indo trabalhar num escritório todos os dias?” Ele vira o rosto para a janela. Percebo que, em seus 68 anos, ainda está se acostumando a conversas tão francas e a própria filha se descondicionando de seu ideal de “mulher certinha”. Ao que ele responde : “quero uma filha feliz.” A sua resposta sem convicção me faz continuar. “Tô só começando. A cada dia que passa descubro mais sobre mim e, em grande parte, é diferente do que me foi ensinado.” No ímpeto de ser verdadeira me excedo um pouco. Peço que ele não crie expectativas por mim porque eu não sei se vou suprí-las. Provavelmente não terei filhos, menciono. Ele diz, com seu eterno otimismo: “Mas quem sabe? As pessoas mudam.” A que respondo: “É verdade. Talvez eu descubra uma forma de ser mãe que funcione para mim. Assim como meu próprio conceito de casamento.” Estamos sendo sinceros e é a vez dele: “No dia em que eu e sua mãe nos mudamos para nossa casa como casados me lembro de encarar o armário do quarto e pensar que tinha feito uma grande besteira. Tinha me enfiado numa prisão. E eu nunca me acostumei. Me sentia confinado.” Ele continua sem perceber que ilustra com a própria história meus questionamentos : “Não fui legal com ela, aquilo não era pra mim.” Percebo que a conversa mexe com meu pai. “Filha, acho que o café tá pronto.” Havia me esquecido completamente do café no fogo. “Pai, tá pronto. Mas me lembrei de um detalhe. Não tem açúcar nem adoçante aqui em casa.” Ele diz que vai tentar tomar assim mesmo. Ao ir embora me entrega a xícara e percebo que não conseguiu tomar o café. Eu, que herdei seu eterno otimismo, encaro como uma tentativa dele de experimentar um pouco do meu mundo. Compreendo que sem açúcar não é para todos mesmo.