Pela janela do quarto

icanthelpbutwonder
2 min readMay 14, 2020

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Nunca havia reparado nele. Ele já dançava em seu apartamento com as janelas semi abertas no mundo pré-pandemia? Não sei. Mas foi num dos primeiros dias de isolamento que notei sua existência. A partir daí sempre que ia a janela ele estava por lá. Como se aguardando que eu aparecesse. Aquilo começou a me incomodar e, por um tempo, só ia a janela quando ele não estava lá pronto para me dar um sorriso. Como se eu o tivesse autorizado a tal intimidade. Continuo me protegendo atrás dos muros que eu mesma construo para me separar do mundo. Do alto de meu próprio forte me abrigo e consigo observar a vida que acontece sem minha presença.

Até que o isolamento social que começou como uma ideia tímida se estende por dois meses. Comecei a sentir falta do estranho da janela da frente. Por que ele desapareceu? Eu só estava fazendo charme. Não era para ele desistir de mim. Vez em quando o via aguardando por uma pizza na portaria do seu prédio. Ou até mesmo saindo de casa sem máscara e sem preocupação numa quinta à noite. Eu já habituada a categorizar pessoas fiz toda a leitura de sua personalidade em minha cabeça. Apenas mais um cara sem responsabilidade e sem conteúdo.

Numa terça de outono o pó de café acabou antes do esperado. Precisei ir ao supermercado e, como de hábito, o vinho estava na minha lista de compras semanal. Há algo no álcool que me faz sentir vontade de estar perto de outros seres humanos. Sentimento que não me vem com facilidade no dia a dia marcado por obrigações que me protegem do sentir. Fui à janela com minha taça na mão meio que em busca de conexão. Reparo num cara cabeludo, com certa dificuldade em carregar tantas sacolas de compra. Ele abaixa ao lado de um senhor que dorme todos os dias sob a marquise de uma loja de câmbio e deixa um pacote de biscoito. Retoma a caminhada rumo ao seu destino. Era ele. O vizinho da frente que desistiu de me dar sorrisos. E dessa vez, de máscara. Bastou trinta segundos para repensar as características que havia atribuído a ele. Talvez ele não seja assim tão sem responsabilidade e sem conteúdo. Talvez eu que tenha pressa demais em me convencer que ninguém é bom demais para mim.

Naquela noite passei mais tempo que o habitual na janela. Espreitava entre as cortinas de seu apartamento na esperança que ele aparecesse. Eu receberia seu sorriso dessa vez. Eu precisava de seu sorriso dessa vez. Mas ele não veio.

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