O trabalho que precede o sonho
Narrativas de sucesso que fogem do padrão cresci-casei-comprei-aposentei viraram produto. O lado positivo disso é que cada vez mais histórias humanas autênticas estão se espalhando. O lado negativo é que se tornaram mais um item potencial para frustração e busca incessante. Ao acompanhar de perto algumas mulheres que me inspiram e que adotam um discurso de que “devemos criar a vida que faz sentido para nós”, percebo que a partir do momento em que elas começam a gozar de certo reconhecimento é fácil, ainda que sutil, confundir inspiração e consumo. Até que ponto estamos nos inspirando e quando isso começa a se tornar mais um item desejo? O capitalismo é tão impregnado em nosso modo de viver que nos torna refém até do que deveria ser o retorno à nossa subjetividade.
Acredito que esta não seja a intenção, mas a influência é inebriante mesmo. Osho é um grande exemplo disso. Pregava que cada um seguisse seu coração e não seguisse nenhum guru, nem mesmo a ele, mas as pessoas se apegam a um alguém que mastigue os pensamentos por ela e os diga a que seguir (ainda que seja o próprio coração) e começam a demandar mais e mais. É assim que se formam as seitas e o Instagram virou uma grande rede de mini seitas. Existe então algum pensar autêntico de fato? Ou até para escutar o tal do coração também precisamos que alguém nos dê as mãos?
Curioso que ontem assisti pela primeira vez “Sociedade dos Poetas Mortos” exibido no final da década de 80 e contextualizado na década de 50 e consegui fazer um paralelo com tudo isso. Nem todos estão prontos para olharem para seus sonhos e aguardarem o tempo de maturação dele. Nem todos tem os recursos psíquicos para romper com toda uma vida de obediência para criar seu próprio caminho. Nem todos estão interessados em sonhar com algo além de se tornarem médicos ou advogados e poder pagar as contas sem preocupação. Achei inspirador o papel interpretado pelo querido Robin Willians? Sim. Mas a própria inspiração precisa ser fundamentada na realidade. E, na maior parte das vezes, não é a figura inspiradora que vai fazer isso por nós. Cabe a cada um olhar para sua vida e enxergar que existem muitos pontos de partida diferentes. Não é sobre não sonhar, pelo contrário. Sou a maior sonhadora de todas. É sobre ter a sabedoria rara de ter a paciência de fecundar seu sonho. Difícil, pois quando nos damos conta de certos sonhos tendemos a nos apaixonar por ele. Mas a paixão é efêmera e não sustenta o longo prazo. Então que sigamos sonhando e nos permitindo brilhar, mas que não se subestime tudo que há de ser feito para chegar lá.