Fim do Mundo — Parte I

icanthelpbutwonder
3 min readMay 15, 2020

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Copa de 2014 . Deixei um Rio de Janeiro tomado por pessoas do mundo todo e rumei para o Fim do Mundo. Tirei dez dias de férias e decidi passá-los sozinha na inóspita Ushuaia. Nunca fui muito de temer a solidão. Temia mais o desencontro que acontecia do lado de dentro. Talvez longe do barulho do familiar eu conseguisse voltar a conversar comigo.

Cheguei por um minúsculo aeroporto cujo interior parecia o de uma estação de ski. Já era noite e o frio me tomou assim que pisei fora do avião. Peguei um taxi simpático que me deixou no Hostel Antartica e lá uma muy amable recepcionista me aguardava: “Juliana?”. Me encaminhei para o quarto misto que dividiria e fiquei feliz por ainda ser a única por lá. Tomei um banho quentinho e fui caçar algo para comer na rua. Seguindo a dica do taxista fui ao “Banana”, pedi um hamburguesa deliciosa e brindei com uma típica Quilmes. Voltei caminhando para o hostel congelando de frio e feliz. Chegando no hostel resolvi ficar um pouco na sala comum antes de dormir. Tinha um grupo de paulistas falando um monte de bobagem sem desconfiar que eu falava a mesma língua que eles.

No café da manhã no dia seguinte fiz amizade com dois americanos, um mexicano e um chinês (fora a recepcionista eu era a única mulher no hostel) e me convidei para ir com eles até o Parque Nacional. Que lugar. Andamos por mais de quatro horas por diversas trilhas que nos levavam às mais diferentes paisagens: lagos gelados e vegetações que eu nem sabia que existiam. Terminamos o passeio com um chocolate quente na única confeitaria que havia por lá.

À noite fomos ao único pub da cidade, o Dublin. Após umas cervejas combinei com o Ryan que no dia segunte iríamos subir o Cerro Martial antes do amanhecer.

No dia seguinte acordei cedo e feliz por não ter bebido demais na noite anterior. Quando cheguei na cozinha, o Sean estava já preparando scrambled eggs para mim (de alguma forma eu o convenci a fazer isso) e o Ryan só apareceu um tempo depois com uma carinha de ressaca, mas sem desistir de nosso trato. Chamei o taxi enquanto ele tirava um cochilo no sofá. Quando chegamos no Cerro, por volta das 8h, ainda estava escuro! Olhamos para a montanha deserta e gelada e em seguida para nossos rostos ressaqueados e concordamos: “We are crazy.” Por algumas horas compartilhamos silêncios, encantamento e alguns tombos. Quando estávamos na metade da montanha, olhei pra baixo e lá do horizonte conseguia ver o sol saindo. Me dei conta que estava no fim do mundo, vendo o sol nascer do alto de uma montanha gelada e deserta com um cara que havia conhecido na noite anterior. Não cabia em mim de felicidade e se meus dedos não estivessem dormentes dentro da luva eu teria me beliscado para ter certeza de não estar num sonho:

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