Carta
Olá Ju,
Percebo que vem incessantemente se punindo por suas escolhas. Não, não adianta dizer que estou enganado. Você não percebe que já esteve neste lugar antes? Novamente você se coloca como a primeira e maior juíza de seus passos. Almeja nada menos que a perfeição quando o que se espera é humanidade. Não vê que se machuca? Seu corpo, cansado, implora por uma taça de Cabernet e um Malboro já amassado.
Resgate sua rebeldia produtiva. Use suas rarunhas a seu favor. Se mostre como é. Enxergue-se como uma mulher falha, aprendiz, errante, controladora, com medo de sua própria coragem. E, por conta disso, capaz de se colocar no lugar do outro com rara sensibilidade. Dotada de uma compaixão que às vezes é dolorida de tão presente. Carregada de conhecimento acumulado e não dividido. Ávida por tantas vidas. Não aceita entregar sem muito empenho, suor, chicote e dedicação. Cheia, cheia de potência em cada cicatriz e tecitura.
Lembre-se, antes do caminho aparecer há que se caminhar. Recupere suas certezas básicas. Recuse-se a tomar atalhos. Tome o seu tempo. Mas, vá para o mundo. É a prática, e não a crítica que deve te acompanhar. Te vejo amanhã.