Aos 31

icanthelpbutwonder
8 min readMay 7, 2020

--

Reggio Emilia — Acervo Pessoal

Havia me perdido aquele dia mais cedo. Berlim estava em obra e não se podia confiar nos habituais impecáveis meios de transporte. Fui deixada em um lugar desconhecido e, com uma hora de atraso, cheguei ao meu destino. Tenho o hábito de não pedir informações quando me perco. Faço questão de me encontrar sozinha. Alguns chamariam de teimosia outros de auto-suficiência. Eu chamo de gosto pela aventura.

Cheguei ao meu destino, casa da Amanda. Amanda é uma brasileira queridíssima amiga de minha amiga, a noiva. Ela se ofereceu para ajudar com a maquiagem e eu prontamente aceitei. Ela contou que não morava ali, na verdade estava cuidando do cachorro dos amigos enquanto eles faziam uma viagem ao Brasil. Amanda é uma daquelas pessoas que te fazem sentir em casa. Estava ouvindo funk, mas disse que era rockeira. O funk ajudava a diminuir a saudade do Brasil. “Se não eu ia surtar nesse país. Imagina?” Com algum atraso chegamos ao local do casamento. Um lindo parque com um Biergarten. Encontramos amigos e aguardamos a noiva. O calor era grande e resolvemos aguardar tomando uma cerveja. Não tão gelada quanto gostaríamos, mas Ok. Em Roma como os romanos. Conversávamos em português e comentávamos sobre os convidados das mais diversas nacionalidades. Um moreno, alto e introspectivo chamou minha atenção. Sabia que era italiano dado seu nariz e beleza. Ele não deu bola. Esqueci que ele existia.

O casamento foi uma delícia. Música brasileira. Pessoas felizes. No entanto, me lembro de ter me sentido sozinha em determinado momento. A conhecida solidão em meio a multidão. Ela me abate volta e meia. Quando as conversas me parecem rasas e sinto desconexão com as outras pessoas. Fui dar uma volta no parque comigo mesma. Me perguntei porque estava me sentindo assim, era um vazio. Disse para mim mesma que eu não ia forçar para caber. E voltei ao local da festa.

Ao final da festa minha amiga, a noiva, pediu que eu colocasse uma playlist na pista de dança. Após alguns hits e a pista de dança lotada, um primo do noivo pediu pra trocar comigo e colocar algumas músicas. Eu, muitíssimo a contra gosto, saí as pick ups e fui reclamar do lado de fora. O italiano moreno alto e introspectivo também estava insatisfeito e assim se deu uma conversa. E da forma mais improvável nos aproximamos.

No dia seguinte à festa ele perguntou se podia ficar no meu airbnb comigo. Por três dias. Eu gelei. Alguém comigo por três dias? Na minha cabeça já estava tudo programado que ficaria naquele apartamento idílico sozinha por uma semana. Não havia esse fator na equação. Me assustei. Após algumas desculpas disse a verdade. Estava acostumada a ficar sozinha. Ele não insistiu mais. Pegou sua bolsa (sim, italianos usam bolsa) e se foi. Perguntei a ele se ele tinha meu número, ele confirmou e disse que me mandaria uma mensagem caso conseguisse ficar em Berlim. Um dia de silêncio foi suficiente e pedi seu telefone para minha amiga. Pensei: “Vou dizer Ciao e ficar com a consciência tranquila de que fiz minha parte.” Mas aquele homem estava destinado a querer mais de mim do que eu estava habituada. Eu, tentando me desacostumar a receber migalhas, me assustei ao ser convidada para um pequeno banquete. Ele não só foi atencioso, como se mostrou muito aberto. Mencionei que estava pensando em visitá-lo por uns três dias. Ele perguntou se eu não podia ficar uma semana. Nada estava indo como eu havia planejado! Eu já tinha previsto uma rejeição e eu poderia voltar a minha rotina habitual de ser a dona de todas as minhas decisões, sem dividir tempo ou espaço com ninguém. Meus amigos deram o empurrão final. “A vida está te dando uma oportunidade dessas e você vai dizer não?” Eu disse sim e alguns dias depois eu desembarcava em Bolonha.

Minha mente não cansava de imaginar os piores cenários. Ele me convidou para uma road trip e eu aceitei. Sendo o artista que é e levando a vida da forma fluida como leva, seu primo me alertou que ele “is a dreamer” e que eu não deveria esperar nada. Eu, que ja não estava esperando nada, passei a esperar o pior. Me convenci de que passaria dias na estrada sem tomar banho e com a pele salgada de mar. Ao me despedir de Berlim disse a minha amiga que lavaria o cabelo, pois não sabia quando seria meu próximo banho. E assim, fui. Preparada para chegar no aeroporto e ter que pedir um Uber. Com prints de hoteis do Booking caso não tivesse onde dormir. Alguns snacks na bolsa. E a expectativa de que, na pior das hipóteses, eu passaria alguns dias comendo pasta, ouvindo italiano e entrando em ruelas desconhecidas. Andiamo!

O avião pousou em Bolonha. No meio da confusão para pegar as malas e aguardar as portas se abrirem fiz contato visual com um homem mais velho. Claramente italiano. Ele não apenas sorriu marotamente como piscou. Duas vezes. Pensei no quanto à Italia e seus nacionais sempre me surpreendiam por seu comportamento caricato. Nunca uma decepção.

Finalmente ao sair pelo portão de desembarque vi todos menos ele. Pensei “Ah Juliana, você já sabia.” Andei um pouco mais e avistei aquele homem lindo de 1,90 me aguardando. Me recebeu com um sorriso e perguntou como eu estava. Como meu voo atrasou, ele estava há uma hora me aguardando. Mas, tudo bem, comprou dois livros enquanto isso. Biografias que o inspiram. Pedi a ele que se não entendesse meu inglês que avisasse. Este era outro receio “como iríamos nos comunicar?” Tinha tudo para ser um desastre. Mal sabia eu que uma semana mágica estava só começando.

Eu estava com uma camisa preta do Guns N Roses, all star de cano alto e calça preta e destoava de todo o cenário milenar e quente que nos cercava. Fazia 36 graus. Quando ele colocou as mãos nas minhas costas e sentiu que estava úmido eu fiquei sem graça. Ele disse que tudo bem. Estava acostumado depois do dia do casamento. Andamos pelas ruas de Bolonha por algumas horas. Ele me mostrou tudo. “Carina, no?” ele dizia. Comemos o Bolonhesa mais tradicional da Itália. Começamos a tentar nos comunicar e nos conhecer. Sem pressa e sem pressão. Eu ainda tentava entender quem era aquele homem além dos estereótipos. “Dreamer”, “Artista”, “Italiano”, “Bonito”. Quem era Pasquale? Em meio às nossas andanças avistei uma livraria e disse a ele que queria entrar. Ele disse “but only Italian books”. Eu disse “I know!”. E, naquele momento, nos reconhecemos como amantes das palavras. Das filosofias. Do desejo por autonomia de si e equidade. Da busca pelo conhecimento do eu. Eu estava me perguntando ainda quem era aquele homem. Saímos da livraria e ele estava “Who am I?”. Acho que ele também está tentando descobrir. De lá, ele disse que ia me mostrar um lugar secreto. Fui apresentada a um hall onde cada parede tinha a foto de um escritor e uma citação. Mal sabia ele que meu sonho é ser escritora. Eu havia ido para a Itália pensando em toda sua gastronomia e contando em me alimentar muito bem. Não contava que meu apetite pelas artes fosse tão abastecido quanto minha fome fisiológica.

Os dias que se seguiram não podiam existir nem em minhas projeções mais otimistas. Cozinhamos um para o outro. Compartilhamos risadas e silêncios. Criamos nossas respectivas artes lado a lado. Me inspirava ao vê-lo tão entregue à música. Chorei. À tarde, após nosso cochilo, ele tocava músicas brasileiras no piano. Passeamos por uma Parma silenciosa e iluminada de mãos dadas. Contei a ele sobre a história do Brasil. Quando ele precisava absorver algum pensamento, ele parava de andar e repetia aquilo. Do alto de toda minha auto-suficiência não cogitava que ser cuidada me faria tão bem. Ele cozinhou um tradicional Carbonara e encheu meu prato. Sentia prazer em me ver feliz com a comida! Quando passávamos bons momentos nos olhando nos olhos ele questionava com seu inglês em aprendizado: “Who is you Juli?” “Why you don’t have a boyfriend in Rio?” “Why you enter my life?” Não sabia responder a ele. Mas internamente me sentia preenchida. Como se aquele encontro tão improvável tivesse me ensinado o que não aprendi em nenhum outro relacionamento, que eu podia apenas ser e estar com alguém e isso ser suficientemente incrível. Por mais desconfortável que fosse não fazer nada em especial. Eu estava conhecendo outros verbos. Não havia nenhum tipo de jogo ou performance entre nós. Infelizmente eu ainda não conhecia essa forma de me relacionar. Um cara que eu mal conhecia estava tendo toda a disponibilidade do mundo para mim. Estávamos presentes o tempo todo. Pensei em quantas vezes eu havia romantizado homens que estavam ao meu lado, mas distantes. Homens que não diziam e/ou sabiam exatamente o que queriam. Ou ainda, não tinham responsabilidade pelo outro na relação. Homens que não faziam a menor questão de olhar para si mesmos e desconstruir condicionamentos. Homens com vergonha de se mostrarem sensíveis. Homens sem coragem de dizer “não sei” sobre os rumos de suas vidas. Homens que censuravam a quantidade de comida que eu colocava em meu prato. Homens que sequer me mandaram mensagem para saber se eu havia chegado bem em casa após estar com eles. Homens que, por não ter nenhum compromisso comigo, não faziam a menor questão de ser carinhosos ou gentis. Homens que fizeram acreditar que o problema era eu.

No dia da despedida, fomos a maior parte do caminho em silêncio. Compartilhando as músicas que tocavam no rádio e o vento que batia em nossas mãos do lado de fora da janela do carro. Pensava na recompensa que a vida nos dá quando nos permitimos viver sem controlar o resultado. Tinha plena consciência que provavelmente nossa história acabaria ali. Mas pensava na relatividade do tempo. Aqueles cinco dias haviam me mudado. Senti um nó na garganta ao abraçar a impermanência da vida. O primeiro impulso é querer nos cercar de certezas. Fazer promessas. Exigir planos. Optamos por não fazer nada disso. Ele canta “Volare” para mim. Não queríamos nos soltar na despedida. Ele disse “ti voglio bene” e assim nos soltamos para nossas próximas aventuras. Aqueles dias foram uma espécie de casulo para mim: cuidado, entrega, leveza e intuição. Saí de lá acreditando em mim. Saí de lá acreditando no amor do “ti voglio bene”. Um querer bem ao outro, sem ideia de posse. Diferente do ideal de amor romântico pregado no Ocidente, se trata de um amor altruísta. Um querer bem que não depende de retorno. Há respeito pela individualidade, o que não implica numa ausência de responsabilidade. Nos atraímos pelo liberdade individual um do outro e queriamos nos ver voando. Ainda que não necessariamente um ao lado do outro.

--

--

No responses yet