309
Era um prédio na rua Gustavo Sampaio. Havia passado por ali diversas vezes em minhas caminhadas sem rumo. Não cogitava que um dia cruzaria aqueles longos corredores e pegaria dois elevadores para finalmente chegar naquele pequeno apartamento de fundos. A primeira vez foi fruto do tédio. Cansada de conversar com meus livros fui dar uma chance ao cara que entitulava seus interesses como “samba, cerveja e cinema”. Ele disse que ia tomar um banho, o apartamento era 309. Estava bebendo enquanto arrumava a casa e assumiu um ar contemplativo durante a faxina. Me identifiquei. Privilégio dos solitários, penso. Ele abriu a porta fingindo despretensão e vestia calça de moleton e suéter verdes. Era um dos raros dias de temperatura mais amena no Rio de Janeiro. “Não repara, tô de pijama.” Entreguei a ele as cervejas que comprei. Sem perceber que havia comprado justamente as da marca que ele não gostava. Ele fingiu não reparar e só confessou insatisfação posteriormente num momento de maior intimidade. Não pense que esse momento se deu dias, semanas ou meses depois. Algumas horas bastaram mesmo. Talvez a mesma cerveja de marca duvidosa tivesse ajudado. Ele era diferente do que eu imaginava. Fisicamente. Intelectualmente. Desmedidamente. Fui surpreendida com a bagunça de outra pessoa. Bagunça interna, visto que a casa tinha acabado de passar por uma faxina. O que mais me surpreendia era que ele não tentava colocar por debaixo do tapete toda sua suposta sujeira. Em algumas horas aquela intensidade me consumiu. E eu não queria ir embora. Queria me perder naqueles caminhos ainda não navegados. Caminhos de alguém que não perde energia tentando provar ser algo que não é. Penso que queria trilhar esses caminhos também. Talvez colocando tal desmedida por outras frestas, mas assumindo um pouco de tudo não muito bonito que habita em mim. Eu não queria ir embora, sentia vontade de ir embora, medo de não voltar e medo de me perder. Tudo junto mesmo.